segunda-feira, 10 de outubro de 2011

SP II


Leonardo Carmo 

São Paulo
Me tritura os ossos
E me raspa as caspas
E me come os dedos
E me despe os pelos

São Paulo
Me decepa os bagos
E me rói os dentes
E me espeta os olhos
E me queima as costas

São Paulo
Me enforca os calos
E me corta veias
Cheira o meu nariz
Cal e pó branco de giz

São Paulo
Meia sola de cinema
Meia boca suga o céu
Puxa meus mamilos
E me corta a lingua
Pra eu não me ouvir

domingo, 9 de outubro de 2011

SP

Leonardo Carmo

nas costas carrego o elevado
da Paulista suporto o peso
meus pés calçados na Mooca
Godard filma O Desprezo

teu beijo molha o asfalto
entre o Campo de Marte
e o Tietê
um sorvete derrete o elevado
e deixa sem peso a Praça da Sé
Godard corre acossado
perdido no Sumaré

sob um céu de concreto
um dia azulado
nenhum carro parado
do centro até o ABC

até parece verdade
Sampra sopra a São Silvestre
e Godard filme apressado O Pequeno Soldado

 
                                              

Tsunami

Leonardo Carmo


acordei  como se de um tsunami  eu retornasse
como se eu sonhasse e são paulo me pedisse
que  no colo eu a carregasse e a mimasse
e pela rua augusta eu  subisse e buscasse
e nenhuma boca que  me adoçasse
acordei como se um furacão eu enfurecesse
e nessa fúria são paulo me dissesse
ela  o  esqueceu mas você
vê  se não me esquece
e  como se o meu cansaço não importasse
são paulo me solicitasse  que eu a abraçasse
e protegesse e a acariciasse  e como não bastasse
me lembrasse ela o  esqueceu  mas você
vê não me esquece
e na Bela Cintra eu me perdesse ou me achasse
sem que eu soubesse ou alguém me avisasse
manas  e nenhuma que eu sugasse ou encoxasse
ou deixasse que  de amor eu a molhasse
como são paulo me acordasse
ela o esqueceu mas você
vê se não me esquece
como se eu comesse a  Consolação
e minha dor o Araçá sepultasse
pés sem pernas o coração não encontrasse
e são paulo sem que eu telefonasse me ligasse
ela o esqueceu mas você
vê se não me esquece

Lamentoo

Leonardo Carmo


Erguei de novo o muro de Berlim 
devolvei o poder às Torres do Kremlin 
matai burgueses na  
Celestial Praça da Paz de Pequim 
que Lula é o mais pobre dos pobres 
da bunda de fora em Bombaim 
isso eu juro ajoelhado 
nas Muralhas de Jericó 
só não sou mais honesto 
porque sou um só 
que caia sobre mim a maldição 
dos túmulos profanados dos faraós 
ou que eu volte a pés para 
em Garanhuns a comer pó
que eu cheire coca colombiana 
na Esplanada dos Ministérios 
ou  morra  de charutos cubanos 
ao som da salsa em Havana
juro eu nunca menti 
que me pese nas costas os juros do FMI
erguei um novo muro em Berlim 
com minha aura de líder sindical
que eu tenho os letrados da USP 
e o apoio da mídia global 
do Bono Vox do U2 
dos tambores do maracatu 
eu sou a neo-reforma social 
ou seja eu devorado pelos 
desdentados do Viaduto Pacaembu 
que eu seja servido no Fome Zero
cozido no fel do urubu